Pedro Yamaguchi Teixeira, a história de uma breve missão que deixou profundas marcas

Deixar marcas entre aqueles com quem se conviveu ao longo da vida não é fácil, consegui-lo em pouco tempo é um desafio ainda mais difícil. A história de Pedro Yamaguchi Teixeira, de cuja morte completaram-se seis anos neste dia 01 de junho, é um claro exemplo de como em pouco tempo alguém pode deixar marcas indeléveis na vida das pessoas, de uma diocese e de uma cidade.
 
Fonte: http://bit.ly/1XVCKkZ 
A reportagem é de Luis Miguel Modino e publicada por Religión Digital, 02-06-2016. A tradução é deAndré Langer.
Filho do deputado federal Paulo Teixeira, um dos mais destacados políticos do Partido dos Trabalhadores, desde pequeno viveu em um ambiente eclesial. Seus pais, desde jovens fizeram parte das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da zona leste deSão Paulo e escolheram seu nome em homenagem a Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra, que juntos escreveram a Missa da Terra Sem Males, como reconhecimento aos povos indígenas brasileiros. Fruto de tudo isto foi sua participação desde muito jovem na Pastoral Carcerária, onde trabalhava como advogado.

Em um dado momento, sentiu o chamado para ser missionário na Amazônia e foi enviado pela Arquidiocese de São Paulo à Diocese de São Gabriel da Cachoeira, em pleno coração da selva amazônica, uma diocese onde praticamente toda a população é indígena. Antes de ser enviado, em uma entrevista, Pedro manifestava seu desejo de “estar ao lado dos povos indígenas e lutar para que sua diversidade de culturas seja preservada e respeitada, que seu contato com os povos chamados civilizados seja um contato o menos deteriorante possível, com mais solidariedade e respeitos às diferenças”.
Chega a São Gabriel da Cachoeira no início do mês de março de 2010 e rapidamente ganha todo o mundo. Desde o princípio, mostra grande interesse em aprender as principais línguas locais, o tucano e o neengatu, começa a visitar a pequena prisão da cidade e a pedir melhorias nas condições dos detentos, que se viam submetidos a condições desumanas, tentando instaurar um modelo de justiça restaurativa, o que pouco a pouco foi esvaziando as celas.
Ao lado disso, aplica-se na solução de diferentes problemas sociais da cidade, promovendo audiências públicas que garantissem iluminação pública, água potável ou outras necessidades básicas, assessora como advogado diferentes organizações indígenas, visita as famílias mais pobres, tem um programa de rádio, cria grupos de teatro e joga futebol em um dos times da cidade. O futebol sempre foi uma das suas grandes paixões, chegando a jogar nas categorias de base do Corinthians.
Em sua última carta aos seus familiares e amigos dizia que “aqui em São Gabriel da Cachoeira está tudo bem. O fato de respirar um ar puro, tomar banho no rio, olhar para a floresta, jogar futebol, viver ao lado do trabalho, está sendo importante. Tenho trabalhado muito. As pessoas me procuram, querem falar com o advogado da diocese, ficam aliviadas quando sabem que não cobro pelo trabalho. Procuram-me para todo tipo de demanda... aqui faltam profissionais em todas as áreas”.
Tudo discorria bem até que nesse dia 1º de junho de 2010 Pedro foi tomar banho no Rio Negro, que na altura de São Gabriel da Cachoeira enfurece suas águas, nas quais muitos já perderam a vida. Apesar de ser um bom nadador e estar no auge da juventude, seu corpo desapareceu nas águas escuras em que havia mergulhado. O corpo foi encontrado somente dias depois e 50 quilômetros rio abaixo de onde tinha sido visto pela última vez.
 
Fonte: http://bit.ly/1XVCKkZ 
Nas palavras do bispo da diocese,dom Edson Damian, “Pedro deu testemunho de que a vida não é um capital para ser acumulado, mas um dom de Deus para ser compartilhado. Vida a serviço da vida dos pobres, dos Povos Indígenas, para pagar-lhes a enorme dívida social que temos para com eles pelos massacres e genocídios perpetrados desde o ‘descobrimento’”.
Seu pai, o deputado federal Paulo Teixeira, o homenageava dizendo que “o mundo te criou assim: generoso, amoroso, alegre, gracioso, elegante, forte, tenaz e consistente” e “nunca vai nos faltar coragem diante de um intrépidoPedro”, pois “a exemplo dos navegantes, que quando perdem seus instrumentos de navegação se guiam pelas estrelas, sempre olharei para o céu para que tua estrela pessoa me guiar”.
Pedro Yamaguchi Teixeira foi alguém que em 27 anos de vida conseguiu tornar realidade aquilo que esperava, que todos “possam sonhar e realizar um mundo mais justo e solidário, um país de todos, que distribua sua riqueza, que garanta os direitos a todos os seus cidadãos, que respeita as diferenças”. Em pouco menos de três meses de missão converteu-se em um sinal de esperança para os sempre massacrados indígenas do Rio Negro.
Hoje, seu nome está presente em escolas de São Gabriel da Cachoeira, na construção que abriga o auditório da diocese, em diversos fóruns que promovem a melhoria das condições de vida dos povos locais..., mas, sobretudo, ficou a memória de um povo que não se esquece de alguém a quem chegaram a chamar de parente, termo com o qual os indígenas se referem àqueles que pertencem à sua raça e para quem sempre têm a porta de sua casa aberta.
As pessoas continuam vivas entre nós enquanto sua memória não se apaga e seus sonhos e utopias alimentam as lutas de quem acredita que vale a pena continuar apostando no Reino. Necessitamos de Pedros, de pessoas a quem não lhe importe colocar a sua vida a serviço de Deus e da missão, embora isso possa levar a “perder” essa vida repentinamente. O tempo é uma medida relativa e há pessoas que em poucos anos conseguem mostrar ao mundo que Deus continua entre nós.

Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/555913-pedro-yamaguchi-teixeira-a-historia-de-uma-breve-missao-que-deixou-profundas-marcas

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