Migrantes nordestinos em São Paulo contam suas histórias em 'audiopeça'

MARIA LUÍSA BARSANELLI
DE SÃO PAULO


Em "Ao Pé do Ouvido", peça que estreia nesta quinta-feira (3), sete atores do Núcleo Experimental de Teatro despem-se de grandes cenários e figurinos e limitam-se a ouvir e reproduzir histórias.
Munidos de fones de ouvido, escutam entrevistas feitas com um médico, um pedreiro, uma costureira, uma babá, um pedreiro, uma atriz e um porteiro. Todos nordestinos, todos migrantes em São Paulo. A partir das gravações (inaudíveis para os espectadores), reproduzem para o público as falas dos entrevistados, emulam seus trejeitos, sotaques, entonações.
"É quase uma suprarrealidade, como se você levasse o realismo para um outro patamar", conta o diretor Zé Henrique de Paula.
"A gente não constrói nada, tenta só ser uma mídia para contar essas histórias", afirma a atriz Rita Batata.
Os atores descobrem na hora da apresentação quem irão interpretar –e revezam personagens a cada sessão.
Lenise Pinheiro/Folhapress
Sao Paulo, SP, Brasil. Data 30-08-2015. Espetaculo Ao pe do ouvido. Direção Jose Henrique di Paula. Atores da esq p dir. Bruna Thedy, Herbert Bianchi, Laerte Késsimos, Cy Teixeira e Rodrigo Caetano. Sede Nucleo Experimental. Foto Lenise Pinheiro/Folhapress.
Bruna Thedy, Herbert Bianchi (ao fundo), Laerte Késsimos, Cy Teixeira e Rodrigo Caetano em ensaio
Colocam seus fones (que também vedam o áudio externo) e precisam reproduzir simultaneamente o que escutam, atentando-se para as pausas da gravação, para os erros de fala dos entrevistados –uma versão da técnica verbatim, popular em Londres.
"Os intérpretes têm de fazer uma reprodução fiel no momento da escuta, não dá tempo de ouvir uma frase e depois repetir", explica o encenador. "Eles não sabem de cor o texto. É uma tentativa de deixar o ouvido fresco. Por isso o revezamento."
Segundo ele, mesmo sem combinar, mais de um ator traz expressões corporais parecidas (mais expansivas ou acanhadas) para um mesmo personagem. "Isso mostra como a gente tem uma compreensão aguda de quem são as pessoas só por suas vozes."
Para construir as histórias, os atores se dividiram em entrevistas com nordestinos que viviam na capital paulista. Deixaram-nos soltos para narrarem suas vidas e, depois, costuram o texto, intercalando as gravações.
"Achamos que a melhor maneira de contar essas histórias era por meio das falas deles mesmos, sem a construção de uma dramaturgia, deixando que eles conversassem com a gente", diz Zé Henrique.
São pessoas de origens e formações distintas, mas que sempre falam da família, dos estudos, da profissão e de sua jornada em outra cidade.
Além da aceitação e do preconceito que sofreram ao chegar à capital paulista, como conclui uma das entrevistadas: "São Paulo é uma cidade feita de pedaços de sonhos de um monte de gente. Aí vira esse monstrengo cinza".
AO PÉ DO OUVIDO
QUANDO qui. a sáb., às 20h30; até 17/10
ONDE Sesc Pinheiros, r. Paes Leme, 195, tel. (11) 3095-9400
QUANTO R$ 7,50 a R$ 25
CLASSIFICAÇÃO 10 anos 

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/09/1676965-migrantes-nordestinos-em-sao-paulo-contam-suas-historias-em-audiopeca.shtml

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